Zurara e a gente woke. Mentiras e mal-entendidos

20-08-2025 12:59

Com a agudeza de espírito que o caracterizava, o poeta popular António Aleixo definiu magistralmente a forma mais eficaz de mentir. Disse ele que “para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”. Seja por ignorância, por mero mecanismo de repetição do erro ou por má-fé, a gente woke — que, como Manuel Maria Carrilho nos lembra em A Nova Peste, um livro que aconselho a quem queira perceber o que é o wokismo, vai de sociais-democratas até a bloquistas —, tem procurado difundir mentiras que dão trabalho a contrariar e a desfazer.

Uma dessas mentiras envolve Gomes Eanes de Zurara, comendador da Ordem de Cristo e protegido do Infante D. Henrique, cronista no reinado de D. Afonso V — em cuja casa foi, aliás, educado. Em meados do século XV, Zurara escreveu, entre outras obras, um texto vulgarmente conhecido por Crónica de Guiné. Há umas passagens dessa crónica, mais concretamente do seu capítulo XXV, que têm sido muito usadas pela gente woke. Ainda recentemente Lídia Jorge e a realizadora Dulce Fernandes recorreram a elas, como muitas outras pessoas da sua confraria ideológica vêm fazendo de há anos a esta parte, para tentarem mostrar que Zurara seria assumidamente crítico do tráfico de escravos e contra ele. Em que se fundamentam? No facto de Zurara ter escrito, na Crónica de Guiné, que se comovia ao ver a dor dos africanos, aumentada até ao paroxismo pela partilha dos escravos e a separação de parentes. Dessa comoção do cronista extraem os espíritos woke a conclusão mentirosa de que ele acharia a escravatura degradante e injusta e citam muitas vezes excertos escritos por Zurara que parecem indicá-lo. Um dos parágrafos mais frequentemente citados, modernizando-se a linguagem para ser mais facilmente entendível, é o seguinte: “Mas, para a sua (dos escravos) dor ser mais acrescentada, chegaram os que estavam encarregados da partilha e começaram a separá-los uns dos outros, a fim de fazerem lotes iguais. Por isso havia necessidade de se separarem os filhos dos pais, as mulheres dos maridos e os irmãos uns dos outros. Não se tinha qualquer consideração por amigos ou parentes, cada um ia parar onde a sorte o levava”.

Estará esta passagem adulterada? Não. Zurara escreveu-a, de facto, mas escreveu muito mais e sobretudo escreveu coisas que mostram o contrário daquilo que Lídia Jorge, Dulce Fernandes e muitas outras pessoas da sua área política e ideológica presumem ou julgam saber e nos querem inculcar. É por isso que as suas interpretações acerca da relação de Zurara com a escravatura são, mais do que equivocadas, profundamente mentirosas no sentido que António Aleixo sublinhou. A tese de que Zurara seria contra a escravatura é uma mentira que tenta ser segura e atingir profundidade. Vejamos porquê:

No tal capítulo XXV em que os woke se baseiam, Zurara começa por se dirigir a Deus, na convicção de que é Ele que permite e sanciona as violências do tráfico, e pede-lhe que lhe perdoe as lágrimas que não conseguiu conter ao ver a partilha dos escravos porque a humanidade desses infelizes constrangia a sua a chorar “piedosamente o seu padecimento”. Pois se até os animais “com seu bestial sentir” reagiam ao dano de seus semelhantes, como não haveria o cronista de se impressionar na sua “humanal natureza” quando contemplava a angústia daqueles seres “da geração dos filhos de Adão”?

Portanto, Zurara condoía-se, o que nada tem de surpreendente nem significa que fosse contra a escravatura. As pessoas no século XV — e nos outros, claro — tinham sentimentos. Aliás, a capacidade de sentir empatia com a tristeza e a dor dos seus semelhantes encontra-se ao longo dos tempos. No século XVII, por exemplo, o Padre António Vieira também se condoía com a visão dos africanos que chegavam ao Brasil desvalidos e nus, e também considerava que aquela situação era conforme com a vontade de Deus. Mas Vieira não pensava que a escravatura dos negros fosse injusta, e Zurara também não. É que — e esse é um desenvolvimento que o cronista expõe no capítulo XXVI da sua Crónica de Guiné, um capítulo que a gente woke desconhece ou omite —, passada a dor da partilha inicial, os escravos iam tendo “conhecimento da terra (portuguesa), na qual achavam grande abastança”. E como, segundo Zurara, os tratavam bem, tão bem como aos servidores portugueses livres, iam-se adaptando. O cronista informa que se ensinavam ofícios mecânicos a alguns deles, e que a outros, aos que tinham capacidade para administrar bens, se concedia a liberdade, casando-os com mulheres brancas. E refere que, uma vez em Portugal, e já habituados às suas relativas riquezas e comodidades, nunca mais procuravam fugir e voltar para África. Ou seja, era aquele tráfico que permitia trazê-los à civilização, pois eles viviam “assim como bestas, sem alguma ordenança de criaturas razoáveis, que eles não sabiam o que era pão nem vinho, nem cobertura de pano, nem alojamento de casa”. E o pior era “a ignorância que neles havia, pela qual não haviam algum conhecimento de bem, somente viver em uma ociosidade bestial”.

Isto foi o que Zurara escreveu, no século XV. Ora esta parte, que é conclusiva e a mais importante do pensamento do cronista relativamente à escravatura, é sistematicamente ignorada ou omitida pela gente woke que se foca única e exclusivamente nas suas lágrimas e sentimentos de compaixão para daí extrair a falsa ideia de que ele era um opositor da escravatura — porque os woke supõem erradamente que o peso que as emoções e a vitimização têm nas nossas sociedades actuais era igual ao que teriam no século XV. A gente woke diz-nos que Zurara apresenta a vinda de escravos negros para Portugal em meados do século XV, como uma coisa lancinante, cruel, horrível, mas essa é apenas a parte verdadeira que vem à mistura de uma mentira segura e profunda.

Todavia, essa mentira não se fica por aí. As cabeças woke tentam mostrar, acessoriamente, com base na Crónica de Guiné, que o Infante D. Henrique — que às vezes inacreditavelmente acusam, de ter sido “o primeiro comerciante de escravos” —, era uma pessoa execrável pois ficara com 46 escravos, a parte que lhe cabia daquela incursão em busca de pessoas na costa de África. Ora os opinadores woke ignoram ou omitem que Zurara explica, na Crónica de Guiné, que D. Henrique não ficou com esses escravos que por direito e costume, lhe cabiam. Na verdade, na parte final do capítulo XXV o cronista explica que o móbil daquele infante não era engrandecer a sua riqueza material, mas promover o avanço do cristianismo, considerando que a si lhe bastava “a salvação daquelas almas, que antes eram perdidas”. Por isso, assim que aquelas pessoas foram baptizadas e se cristianizaram logo delas se separou. O cronista conta que viu em Lagos “filhos e netos” já nascidos em Portugal desses escravos chegados em 1444 e que eram “tão bons e tão verdadeiros cristãos como se descenderam de começo da lei de Cristo”. E é essa cristianização que, para Zurara, e em primeiro lugar, legitima e justifica a escravatura dos africanos e o faz desembocar num elogio directo a D. Henrique numa passagem da Crónica de Guiné que a gente woke ignora e que já referi num artigo anterior, mas volto a fazê-lo: “Ora vede que galardão deve ser o do Infante (D. Henrique) ante a presença do senhor Deus, por trazer assim à verdadeira salvação não somente aquestes, mas outros mui muitos que em esta história ao diante podeis achar!”.

A omissão desta passagem da Crónica de Guiné é um erro de palmatória ou o cúmulo da má-fé. No momento em que se iniciaram os Descobrimentos a ideia de salvação das almas estava na primeira linha da legitimação da acção escravista dos portugueses. Já durante a Idade Média essa ideia tinha levado a proibir que cativos cristãos fossem possuídos por não-cristãos (judeus ou muçulmanos) pois isso faria perigar a sua salvação. Depois, a mesma ideia viria a fundamentar as sucessivas bulas papais que concederam às autoridades portuguesas o direito de reduzir à escravidão os mouros, pagãos e demais infiéis. E levaria, também, ao baptismo precoce dos cativos africanos para que, caso viessem a morrer na travessia do Atlântico ou já no ponto de chegada, se salvassem ao menos as suas almas, o maior serviço que todos os que trabalhavam no tráfico de escravos podiam fazer para glória de Deus. Como Zurara reconhece, alguns morriam, por enfermidades e diferenças de alimentação, “porém (morriam) cristãos”. Por idêntica razão, e como João de Barros nos conta na primeira das suas Décadas da Ásia, D. João III viria a proibir o tráfico de escravos para o actual Gana — sim, também houve africanos a comprar outros africanos — já que, nesse comércio, e a troco de ouro, os portugueses entregavam escravos teoricamente baptizados ao alvedrio de senhores pagãos: “E vendo el Rey (…) como esta gente pagã, que já estava em nosso poder, tornava outra vez às mãos dos infiéis, com (o) que perdiam o mérito do baptismo e suas almas ficavam eternamente perdidas (…), como Príncipe cristianíssimo, mais lembrado da salvação destas almas que do proveito de sua fazenda, mandou que cessasse este trato deles”.

Em suma, a ideia da salvação das almas era central no pensamento da época, e, em Zurara, essa ideia, em conjunto com a de civilização e melhoria de vida dos negros constituía a base racional capaz de justificar a escravatura. O cronista chorava a sorte das pessoas, impressionava-se com o sofrimento da separação das famílias, sim, mas justificava e aplaudia a escravatura. Longe de ser um crítico ou opositor ao tráfico de escravos, Zurara era um dos seus advogados. Mas admitir isso não convém aos espíritos woke que querem meter-nos na cabeça que sempre houve gente que considerou a escravatura perversa, injusta e ilegítima. Lamento desiludi-la: no século XV não havia, que eu saiba. E mais: fora algumas raras excepções, só começou a havê-la, e, agora, sim, em significativa quantidade, de meados do século XVIII em diante. - João Pedro Marques (publicado pela 1ª vez in Observador, 20 de Agosto de 2025).