Uma petição em prol do Museu dos Descobrimentos

11-01-2026 10:02

No passado dia 12 de Dezembro o arqueólogo Alexandre Monteiro escreveu aqui no Observador um extraordinário artigo expondo as razões pelas quais deveria haver em Portugal um Museu dos Descobrimentos com as características e a vocação que então explicitou. Agora, Alexandre Monteiro deu mais um passo em frente e redigiu uma petição à Assembleia da República para que, como lá se diz, o nosso parlamento “promova a discussão séria e informada sobre a criação de um Museu dos Descobrimentos, enquanto projeto nacional estruturante, científico, crítico e inclusivo, à altura da dimensão histórica global de Portugal”.

Já assinei essa petição, fi-la circular tanto quanto posso e peço a quem me lê que, querendo e concordando com o conteúdo e o alcance da dita petição, igualmente a assine e divulgue. O processo de assinatura não é simples nem imediato. Por outras palavras, podia ser mais fácil e intuitivo, mas sendo Portugal o país algo intrincado que todos conhecemos, a assinatura da petição também o é. Exige, primeiro, que o signatário se registe e só depois poderá assinar. Quem quiser fazê-lo deve seguir este link. Espero que haja muita gente a segui-lo porque o assunto é da maior importância para a nossa memória colectiva, para a informação das gerações mais novas e dos estrangeiros que nos visitam e para arrancar o tema dos Descobrimentos da luta ideológica que de há muito o aprisiona e contamina. Esta petição apresentada ao parlamento é vinculativa, isto é, 1000 assinaturas garantirão a publicação no Diário da AR e a audição obrigatória na comissão. Mais de 4000 assinaturas ou proposta fundamentada permitirão a discussão em Plenário, e 20.000 darão azo a uma iniciativa legislativa cidadã. Sei, porém, que há muita gente que não se entende com o complicado procedimento exigido para assinar e acaba por desistir de o fazer. Para essas pessoas que, desejando assinar, têm dificuldade em manobrar no labirinto de exigências que a Assembleia da República lhes coloca, existe a mesma petição numa plataforma mais simples e intuitiva, ainda que não vinculativa, que encontrarão neste link. O mais seguro, claro, é assinar ambas, para dar mais força a esta iniciativa.

Convirá lembrar, a quem já o esqueceu, que o Museu dos Descobrimentos, ou melhor, o Museu das Descobertas, era um projecto do ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, e que essa sua intenção política entrou no debate público em 2018, suscitando forte ou fortíssima oposição por parte da extrema-esquerda e dos sectores do PS com ela irmanados. Nessa altura as redes sociais encheram-se de ataques ao projecto de Medina e a esquerda académica mobilizou-se, emergindo nas páginas do Expresso através de uma carta aberta assinada por cerca de uma centena de pessoas. Nem todas eram de esquerda, diga-se. Havia entre elas académicos de outras áreas políticas e de reconhecido saber, como é, por exemplo, o caso de João Paulo Oliveira e Costa, que tentou explicar no Diário de Notícias o que estava em causa quanto à designação, se bem que salvaguardasse a ideia de que era necessário existir um museu. Infelizmente, a sua explicação perdeu-se na vozearia da esquerda e nos seus intuitos bloqueadores desse projecto museológico.  

Confrontado com essa oposição de professores e investigadores, e necessitando, em tempos de Geringonça, do apoio político dessa esquerda e extrema-esquerda, Fernando Medina recuou no seu intuito de criação do museu e Carlos Moedas, que lhe sucedeu na presidência da câmara municipal, não ousou sequer tocar na questão nem que fosse com a pontinha dos dedos. Todavia, o problema subsiste pois como acertadamente se diz logo no início da petição agora redigida pelo arqueólogo Alexandre Monteiro, “Portugal é hoje o único país marítimo com projeção global histórica que não dispõe de um museu central, científico e crítico dedicado à sua expansão marítima. Paradoxalmente, conhecemos mais sobre navios da Antiguidade Clássica do que sobre as embarcações com que, nos séculos XV e XVI, navegadores portugueses ligaram continentes e inauguraram a primeira globalização. Falta-nos um espaço estruturado onde esse passado seja estudado, exposto e debatido com rigor histórico, arqueológico e científico”.

É preciso que essas situações de carência e de excepção acabem e que se crie finalmente um museu. É preciso que o assunto reentre na agenda política e que seja levado a debate na Assembleia da República. E para isso e para que a iniciativa de Alexandre Monteiro não caia em saco roto e morra, eu apelo a que a apoiem, a assinem e divulguem na medida das vossas capacidades. O país e o futuro da nossa memória colectiva agradecem-vos. - João Pedro Marques (publicado pela 1ª vez in Observador, 11 de Janeiro de 2026).