Perplexidade na sala de aula
Desde o início do ano lectivo de 2026-27 que a Dra. Olímpia Xis se esforçava por respeitar o novo programa da disciplina de História e por corresponder às directivas emanadas do Ministério da Educação. Aquele era o seu primeiro ano como professora, mas aprendera rapidamente a disfarçar a sua insegurança atrás da forma briosa e cumpridora como desempenhava a sua função naquela escola na periferia. Ainda assim era sempre com uma pontinha de apreensão que entrava na turma A do 10º ano. Não que os alunos que dela faziam parte fossem indisciplinados ou agressivos, pelo contrário. O leve problema é que um deles era invulgarmente atento e informado. A Joana — era esse o seu nome — era positivamente brilhante, extraordinariamente arguta, tão arguta que parecia ter vindo de outro planeta. Não raro essa aluna fazia-lhe perguntas que a deixavam embaraçada. Desta vez, porém, a professora Olímpia Xis estava menos inquieta do que era costume, ia menos de pé atrás, pois naquela tarde iria falar de escravatura. O novo programa exigia explicitamente que os alunos fossem capazes de “relacionar a prosperidade das potências coloniais com o tráfico de seres humanos e a escravidão, nomeadamente no espaço transatlântico”, e isso parecia-lhe tão óbvio, e a reparação desse horrendo facto histórico tão moralmente justa, que não antevia perguntas incómodas ou inesperadas.
Foi, por isso, de peito aberto que expôs a matéria, projectando, até, a imagem de uma tabela actualizada das viagens dos navios negreiros das várias nações ocidentais, tendo um prazerzinho masoquista que lhe vinha da sua costela woke, em acentuar a responsabilidade portuguesa:
— Como podem ver — referiu, apontando para a tabela — Portugal levou quase 6 milhões de pessoas escravizadas para a América. Para sermos mais precisos, Portugal transportou um pouco mais de 5,8 milhões.
Enquanto continuava a exposição reparou, com uma pontinha de inquietação, que Joana escrevia qualquer coisa no seu caderno de apontamentos e essa sua inquietação cresceu quando a aluna pôs um braço no ar para lhe fazer uma pergunta:
— Sôtora, desculpe, mas a tabela diz Portugal e Brasil. Esses quase 6 milhões são só de Portugal ou são de dois países juntos?
Olímpia Xis parou de falar. Olhando com atenção para a tabela verificou que a aluna tinha razão, e assumiu-o de imediato enquanto ia tentando fazer contas de cabeça:
— Sim, é verdade, Joana. A partir de 1822 é claro que é responsabilidade do Brasil já independente, não é? Ora deixa cá subtrair a parte do Brasil… alguém me ajude, por favor, que eu não sou brilhante em Matemática…
A Joana, que já fizera as contas, informou-a de que, a partir de 1822, o Brasil importou cerca de 1,3 milhões de escravos e a professora agradeceu, sorrindo e sentindo que obtivera, apesar daquela correcção, a confirmação do que ensinara:
— Portanto, Portugal transportou os outros 4,5 milhões não é? Ou seja — concluiu, triunfante —, foi ainda assim o país ocidental que mais traficou em negros escravizados.
E já se preparava para prosseguir com a matéria da aula quando Joana levantou novamente o braço:
— Mas então eu não percebo, Sôtora. Se Portugal foi o que mais traficou, e se a prosperidade das potências coloniais está relacionada com o tráfico de seres humanos e com a escravidão, como é que Portugal é o país mais pobre?
A Dra. Olímpia Xis engoliu em seco. A verdade é que não sabia. Aliás nunca tinha pensado nisso, mas era óbvio que havia ali qualquer coisa que não batia certo. Como era humilde confessou a sua ignorância e prometeu à Joana e ao resto da turma que iria investigar o assunto e que logo que possível lhes diria o que concluira.
Chegou a casa tão irritada que se cortou a descascar uma maçã e nessa noite dormiu mal. No dia seguinte, como a irritação não passasse e continuasse sem saber onde procurar informação, atreveu-se a telefonar a Leonardo Ípsilon, um velho professor universitário, especialista na matéria, com quem mantivera algum contacto depois de concluir a licenciatura, e expôs-lhe o que se passara e as suas perplexidade e desorientação.
O Professor Ípsilon ouviu-a atentamente e depois explicou-lhe, num longo telefonema que demorou quase meia-hora, que essa ideia de grande riqueza associada ao sistema escravista vinha de Capitalism and Slavery, um livro de historiador negro das Caraíbas, Eric Williams, publicado em 1944. Todavia, segundo ele, essa ideia não era mais do que uma interpretação, uma teoria. Williams quis demonstrar, entre outras coisas, que o capitalismo mercantil europeu teria criado um sistema de plantação muito lucrativo nas Américas, alimentado pelo tráfico transatlântico de escravos. Para Williams os lucros desse tráfico e do sistema de plantação teriam assegurado a maior parte do capital que viria a financiar a Revolução Industrial Inglesa. Ora, em anos mais recentes, vários historiadores económicos tinham-se encarregado de desmantelar essa teoria, mostrando que o tráfico negreiro e o sistema escravista de plantação forneceram apenas uma parte limitada do capital que alimentou a industrialização inglesa.
— É, portanto, falso — concluiu — que o tráfico e o sistema de plantação tenham sido os causadores da riqueza e do domínio dos ocidentais sobre os outros povos. E se isso é falso para a Inglaterra, com maior força de razão o será para Portugal. Ainda há meia dúzia de anos o Nuno Palma e o Jaime Reis mostraram indirectamente isso.
— Ou seja, se bem percebi, apresentam-se opiniões e interpretações como se fossem factos históricos ou científicos incontestáveis.
— Isso mesmo, Olímpia. É claro que o trabalho escravo foi indispensável para a rápida fixação e exploração europeia das Américas, e é também claro que contribuiu para o crescimento económico da Europa, mas não ao ponto que se diz.
— Mas uma vez que assim é, como se explica este programa da disciplina de História que exige aos professores que façam os alunos relacionar a prosperidade das potências coloniais com o tráfico de seres humanos e a escravidão, nomeadamente no espaço transatlântico?
— Não lhe sei dizer, Olímpia, não sei o que se passa no Ministério da Educação, mas pode estar relacionado com as guerras culturais e com a vontade política e ideológica de criar entre os jovens uma certa inclinação para virem a aceitar ou, até, a defender, a ideia de reparações às Caraíbas, ao Brasil e a vários países africanos. Em tempos li que aquela exposição sobre o colonialismo que esteve ou ainda está, já não sei bem, no Museu de Etnologia, aquela em que se afirmava que a sociedade portuguesa se caracteriza pelo racismo sistémico, imagine, e que tinha como principal objectivo descolonizar as mentes dos portugueses, lembra-se?
— Sim, sim.
— Pois li que andou a ser mostrada, em versão reduzida, pelas escolas e instituições do país. Pelos vistos o governo da AD apoia ou faz de conta que não vê estas farras ideológicas. Bom, mas voltando ao assunto: pelo que me vou apercebendo nos jornais, a gente woke não abre mão da tese simplista de Eric Williams sobre o enriquecimento do Reino Unido e da Europa, e não cessa de a difundir. E porquê? Porque só ela justifica que a sua sanha incida em exclusivo num tipo específico de tráfico de escravos, isto é, no tráfico transatlântico feito pelos europeus, e não, por exemplo, no tráfico feito pelos muçulmanos através do deserto do Sara. Só assim se explica, também, que os pedidos de reparações se circunscrevam aos ocidentais, e não abranjam todos os outros povos — os árabes, por exemplo — que traficaram escravos em África e noutras partes do mundo. Mas isto, claro, é off the record. Escuso de lhe recomendar que não diga isto aos seus alunos.
Olímpia Xis agradeceu penhorada ao seu antigo professor e nessa noite já não teve dificuldade em conciliar o sono. Na manhã seguinte entrou sorridente na sala de aula da turma A do 10º ano e explicou aquilo que aprendera na conversa com o Professor Leonardo Ípsilon. Acrescentou, da sua própria lavra, que as razões do enriquecimento e empobrecimento das nações são várias e complexas, e que não se deve apontar apenas, ou principalmente, a um único factor, como era o caso do sistema escravista. No final da explicação os alunos olharam-na entre a indiferença e o agradecimento, como era costume. Todavia, Joana voltou a esticar o braço direito para fazer uma pergunta:
— Desculpe Sôtora, mas assim sendo que andam essas pessoas do ministério a fazer? Querem meter ideias de culpa e de responsabilidade histórica nas nossas cabeças?
E a Dra. Olímpia Xis tornou a engasgar-se e não se atreveu a responder-lhe. João Pedro Marques (publicado pela 1ª vez in Observador, 3 de Novembro de 2025).