Os enganos de João Pedro George

28-02-2026 08:14

Segundo o sociólogo e crítico literário João Pedro George (JPG) a hipersexualização dos negros, associada a uma distorção do olhar europeu sobre o corpo dos africanos, em particular o das negras, seria uma constante na literatura portuguesa. Trata-se de uma mal fundamentada e errada teoria, como se verá adiante, mas para já o que importa lembrar é que JPG quis meter-me à força dentro dessa sua teoria. Para isso deitou mão a um romance meu, O Estranho Caso de Sebastião Moncada (2014), para mostrar que também eu faria dos negros seres lascivos, vorazes, animalizados, entregues à febre da luxúria e com um desejo insaciável de sexo. O seu penetrante olhar de raio-X permitiu-lhe descobrir nesse meu livro três negras voluptuosas e ávidas de sexo que, segundo ele, confirmavam de novo a sua teoria e também que eu seria mais um exemplo de escritor português com um olhar “colonialista sobre os corpos colonizados”. Porém, para grande azar seu, nesse meu livro não há protagonistas negros, são todos brancos incluindo as três mulheres que JPG supôs serem africanas. Fiz-lhe notar esse engano, que admiti ser consequência de um trabalho de investigação pouco cuidado e de uma projecção sobre os outros — sobre mim, no caso — das próprias fantasias de JPG a respeito da sexualidade das negras. Afirmei também que nos meus romances não há “diferenças assinaláveis entre mulheres brancas e negras no que toca à líbido ou à forma de viver e exprimir a sua sexualidade”.

Irritado com o facto de eu ter posto a nu os seus tropeções, JPG veio responder através de uma prosa interminável, misturando alhos com bugalhos, disparando em todas as direcções e tentando enredar-me em questões colaterais. Segundo ele eu seria um obcecado com o wokismo, uma pessoa que escreve sempre sobre o mesmo assunto, um historiador de duvidosa competência, um escritor idoso apenas interessado no sucesso comercial dos seus romances, etc. Tudo isso, sendo pitoresco e fazendo sorrir, é, também, falso e seria fácil mostrá-lo. Todavia esse exercício consumiria espaço, tempo e a paciência dos leitores e desviar-nos-ia dos assuntos centrais que são, relembro-o, a teoria de JPG sobre a hipersexualização dos negros na nossa literatura e o facto de ter martelado um dos meus romances ao afirmar, para daí extrair conclusões pré-fabricadas, serem negras três personagens que, de facto, são brancas. JPG reconhece esse seu triplo erro, e explica-o como resultado de um engano nos seus  apontamentos. Porém, garante-nos que esse “lapso não invalida ou desqualifica o argumento central do (seu) texto, que diz respeito à hipersexualização de personagens negras na literatura portuguesa, incluindo os romances Uma Fazenda em África ou Do Outro Lado do Mar (de João Pedro Marques)” e informa-nos de que passará de imediato a demonstrá-lo “com exemplos concretos e verificáveis”.

Ou seja, o sociólogo começa por assumir o engano para depois contra-atacar no mesmo registo em que escreveu o livro no qual inventou três mulheres negras onde só havia brancas. Esse contra-ataque e os termos em que o faz leva-me a rever a minha interpretação inicial sobre esse seu engano, que pensava ter sido involuntário e inconsciente. Faz-me também perceber melhor o seu método atamancado e as suas insuficiências. Vejamos como:

Tendo prometido que iria demonstrar o meu olhar colonialista através da análise de Uma Fazenda em África (2012) e de Do Outro Lado do Mar (2015), JPG extraiu desse segundo livro uma longa descrição da atracção do padre Inocêncio pela pretinha Martinha e da forma como esta o seduzia. Dessa única descrição concluiu pela hipersexualização dos negros nas minhas obras de ficção. Contudo, há nesse meu livro dezenas de outras personagens negras, várias das quais bem mais importantes do que Martinha na trama da história. É, por exemplo, o caso de Sara ou o da jovem Quisama. Essas mulheres também têm corpos e sexualidade, mas JPG não nos fala delas nem da forma como eu, como escritor, as construo, trato e represento. Os leitores poderão pensar que os dados sobre estas duas mulheres omitidas terão ficado noutro apontamento que JPG, sendo quem é, poderá ter confundido ou extraviado, mas a razão da omissão é outra. O que se passa é que as relações sexuais e amorosas dessas duas mulheres negras, as suas condutas, nada têm de animal nem de hipersexualizado e o sociólogo e crítico literário suprimiu-as para que não viessem estragar-lhe a teoria. Aliás, JPG garante neste seu artigo no Observador que, em contraste com a minha descrição das mulheres brancas, eu reduziria “as mulheres negras a uma presumida natureza primitiva e animalesca”. Ora se se visse forçado a revelar a forma como Quisama amava o médico ou como a escrava Sara fazia amor de maneira suave e se furtava a falar com estranhos por se considerar uma mulher casada, essa sua afirmação enganosa cairia pela base. No contexto da análise e do debate de ideias chama-se impostura ao que JPG faz.

O sociólogo também omitiu as negras de Uma Fazenda em África, apesar de nos ter prometido que as analisaria e que através dessa análise nos revelaria como o escritor João Pedro Marques as hipersexualizava. E omitiu-as porquê? porque as condutas de Kpengla, amazona do reino do Daomé e principal personagem negra desse romance, bem como as de Márcia, Adadine, Libango, Coitadinho Amigo e de outros negros, em nada se ajustam à ideia preconcebida que JPG tem acerca da maneira como os escritores portugueses tratam os corpos e a sexualidade dos africanos.

Curiosamente, numa surpreendente pirueta — será filha de novo engano nos apontamentos? — JPG ignorou as negras de Uma Fazenda em África, mas deitou mão a Benedita, uma personagem branca desse romance, para tentar passar a ideia de que eu teria pouca imaginação libidinal. Diz ele o seguinte: “Como se transitassem de livro para livro, as personagens femininas de João Pedro Marques não mudam de postura quando praticam sexo (…) No manual erótico de João Pedro Marques, aparentemente, existe uma, e apenas uma, posição sexual: a mulher sentando-se sobre o homem deitado, de frente para ele, conduzindo os movimentos e assumindo a iniciativa”.

Estas conclusões são manifestamente falsas, como já é crónico em JPG e como quem leu os meus romances saberá. De todo o modo o que mais importa sublinhar é que no seu esforço para tentar mostrar aos leitores que, do ponto de vista erótico e imaginativo, eu seria muito enfadonho, JPG resolveu reforçar a ideia já transmitira através de Benedita com o exemplo semelhante de Isabel, uma personagem branca de um outro romance meu: A Aluna Americana (2019). E para dar ainda mais força à acusação de que, como escritor, eu teria um fetiche com a postura submissa do homem e o papel directivo ou orientador da mulher, foi ainda buscar o exemplo de Adelaide ao meu romance Haiti (2025). Aparentemente não se dá conta das implicações que o recurso ao exemplo de Adelaide tem para o que ele tenta demonstrar. É que Adelaide é mulata. E se JPG tivesse lido o meu primeiro romance, Os Dias da Febre (2010), teria encontrado a negra Tangi a fazer exactamente o que a mulata Adelaide e as brancas Isabel e Benedita fazem, o que poderá corresponder a uma grande falta de imaginação minha quando ponho as personagens dos meus romances entre lençóis, mas é a prova irrefutável — e muitas outras existem — de que não faço qualquer distinção entre europeus e africanos, e que nas minhas obras de ficção não há diferenças assinaláveis entre a sexualidade e a vivência do corpo de brancas e negras.

Passemos, agora, à questão mais ampla da teoria da hipersexualização dos negros na literatura portuguesa. Para fazer vingar essa teoria JPG teria de ser capaz de nos mostrar, através de um estudo comparativo, que nos autores A, B, C, D e por aí fora, a descrição dos corpos e da sexualidade das suas personagens femininas e masculinas variava em função da cor da pele, e que era mais acentuada entre as de pele escura. Mas, como o presente exemplo da sua análise dos meus romances nos revela, JPG não faz isso. Limita-se a escolher a gosto, retirando do grande recipiente de características e descrições apenas as que lhe interessam e que lhe permitem compor uma narrativa à medida dos seus objectivos e preconceitos, o que distorce substancialmente a matéria analisada e não tem valor probatório algum. Há 32 personagens negras num romance, uma das quais tem a líbido mais solta e à flor da pele? JPG ignora as outras 31, suprime-as, foca-se apenas nessa que é excepcional e faz crer que é ela que constitui a norma. O método é arrepiante e o que dele resulta é gato por lebre.

Ao longo do extenso artigo que escreveu no Observador o sociólogo JPG tenta fazer peito e voz grossa, e diz que não me admite isto ou aquilo. Diz também que eu o citei abusivamente — o que é, mais uma vez, completamente falso — e que isso constituiria um insulto à sua honestidade intelectual e ao rigor do seu trabalho. Mas JPG não está em boa posição para se arvorar em virgem ofendida ou em campeão da honestidade intelectual ou do trabalho rigoroso. Mais. Quando opina sobre mim e sobre os meus livros, ainda por cima não compreendendo ou adulterando o que eu escrevi, e quando usa os métodos analíticos enganadores que acabo de expor, não pode estranhar a minha réplica e a minha necessidade de lhe corrigir os erros. Nem pode estranhar que lhe diga que sou eu que não admito, como já não admiti a Margarida Rendeiro, que se pegue nos meus romances e personagens, e que se faça, com eles, uma falcatrua literária para daí concluir que eu hipersexualizaria os negros e que teria um olhar colonialista. - João Pedro Marques (publicado pela 1ª vez in Observador, 28 de Fevereiro de 2026).