João Pedro George e a esquerda que treslê
Por curiosidade, interesse e dever de ofício leio muitos livros de autores portugueses sobre temas coloniais e um dos últimos que li foi O Cemitério do Elefante Branco. Retornados e Ficções do Império Português, de João Pedro George.
O que me traz aqui não é fazer a recensão desse livro, mas corrigir e interpretar uma passagem do seu capítulo 5 na qual o autor lança mão de uma obra minha para tentar alicerçar as suas teses. De facto, ao abordar a forma como certa literatura fala da líbido e da sexualidade dos negros, João Pedro George afirma que há uma “apreciação generalizada dos negros como hiper-sexuais (leia-se: em estado de perpétua excitação), entregues à febre da luxúria, com um desejo insaciável de sexo, em que a necessidade erótica se manifesta como uma reacção explosiva”. O autor considera que “o exemplo mais decadente, ou mais degradante” dessa hiper-sexualização e luxúria se encontra “nas descrições do corpo das negras e da sua poderosa sexualidade, que convida os homens a regressarem às deliciosas sensações primárias do sexo animal, a cuja tentação não conseguem resistir”. George está convencido de que “essas descrições não surgem do nada, inscrevem-se na história da literatura portuguesa” e afirma que “nos nossos dias, vários romances descendem desta tradição, como O Estranho Caso de Sebastião Moncada (2014), de João Pedro Marques, que descreve a negra Poleciana a fazer amor com o tenente Mateus ‘como um animal insaciável’ e aparentando ‘uma expressão excitante, quase demoníaca’; Maria, a criada negra de Sátiro da Costa, contorce o ‘corpo como uma cobra’; e Luísa ama Mateus ‘de uma forma selvagem’, com uma ‘expressão devoradora’ (pp. 295-6).
Ou seja, João Pedro George usa o meu romance O Estranho Caso de Sebastião Moncada para dar aos seus leitores exemplos daquilo que designa por “olhar colonialista sobre os corpos colonizados”. Sucede que, no que diz respeito ao meu livro, nada disso é verdade, como quem o tiver lido, ou for ler, sabe ou poderá vir a saber, e é verdadeiramente extraordinário que George tenha extraído essas conclusões de uma obra que nada tem a ver com África nem com africanos. De facto, O Estranho Caso de Sebastião Moncada é uma história de natureza passional, militar e policial, passada exclusivamente em Portugal, sobretudo no norte do país, e no contexto das Guerras Liberais de 1832-34. As personagens que João Pedro George refere como sendo negras são todas elas alvas como a neve. Aliás, e com a irrelevantíssima excepção de uma cozinheira negra a que se alude uma única vez, sem a identificar, no início do romance, e que não tem nele qualquer peso ou intervenção, todas as personagens que interagem no desenrolar da trama são brancas. Muitas vezes isso é explicitado nas descrições físicas das personagens. Outras vezes está implícito, como é natural. Seria redundante e absurdo ter de explicar caso a caso, acerca de cada personagem, que se tratava de pessoa de raça caucasiana e pele branca. Não se especificando coisa diferente, qualquer leitor pressuporá que num romance passado há cerca de 200 anos no Porto, em Penafiel e noutras povoações do norte, assim seria já que o número de negros existentes nessas terras era, nessa época, ínfimo ou nulo. Importa, não obstante, sublinhar que mesmo nos casos em que a pertença étnica está implícita ela subentende-se ou deduz-se com facilidade. Alguns exemplos concretos sobre as três personagens que João Pedro George referiu: a criada Maria, que se contorce como uma cobra (para escapar aos abraços e carícias do azeiteiro de Vilar) tem a cara corada (p. 116); Poleciana, ou melhor, D. Poleciana Alves da Cunha, é uma senhora da fidalguia rural com criados e gente de lavoura ao seu serviço (pp. 90-1), que vive numa casa senhorial em Barcelos, em cujas paredes há quadros de austeros antepassados (p. 93) e que, à noite, pronta para dormir, deixa que os cabelos soltos lhe caiam sobre os ombros (p. 97); Luísa é mulher do juiz Etelvino de Vasconcelos e filha de um rico lavrador da região de Avintes (p. 43). Ou seja, nada no texto permite ao leitor supor que as personagens que o habitam não são brancas, muito pelo contrário.
Aqui chegado a pergunta que coloco é a seguinte: como foi então possível que João Pedro George tivesse confundido e subvertido a este ponto o que leu e o que eu escrevi? Estou em crer que não se tratou de uma confusão entre dois romances meus, pois os nomes das personagens batem certo e as citações também. Parece-me igualmente seguro que ao contrário de Margarida Rendeiro que, por razões políticas e ideológicas, leu e criticou dois dos meus romances com manifesta má-fé, neste caso não se trata de um mal-entendido maldoso ou propositado. Julgo, isso sim, que este grande engano resulta da conjugação de duas coisas diferentes e ambas negativas. Vejamo-las uma a uma:
Em primeiro lugar esta confusão de George parece resultar de uma investigação algo descuidada e apressada, o que não abona a qualidade do seu trabalho. Aliás, George confessou em tempos, numa entrevista ao jornal Sol, que pode não ler os livros “da primeira à última página”, mas ficar-se apenas por “nacos significativos”. Não é de excluir que nem isso tenha acontecido na leitura deste meu livro e que os tais “nacos significativos” tenham sido, nesse caso, apenas esparsas migalhas.
Notem, porém, em segundo lugar, que não se trata de um lapso causado por uma desatenção momentânea, mas sim de três enganos em diferentes passagens do livro, três alucinações em torno de três mulheres diferentes — Maria, Poleciana e Luísa —, mas todas no mesmo sentido, e isso pode também ter um significado mais profundo do que um simples descuido e uma leitura superficial. Julgo que João Pedro George leu O Estranho Caso de Sebastião Moncada e converteu aquelas três mulheres brancas em mulheres negras por causa das passagens eróticas e das cenas de sexo. Maria, a criada com a cara afogueada, mas que serpenteia como uma cobra para escapar às carícias do azeiteiro, passou, por causa desse seu serpentear, a ser, no entendimento de George, africana. Poleciana Alves da Cunha, poderosa senhora de Barcelos que faz amor com a boca entreaberta e a ponta da língua a percorrer eroticamente os lábios, passou igualmente, por demasiado excitante, a ser negra. E Luísa também porque, na intimidade com o tenente Mateus, a mulher do juiz Etelvino de Vasconcelos se mostra selvagem e devoradora.
Ou seja, não sou eu, como autor, que vejo os negros como “hiper-sexuais” ou “em estado de perpétua excitação”, “entregues à febre da luxúria (e) com um desejo insaciável de sexo”. Não existem nos meus romances diferenças assinaláveis entre mulheres brancas e negras no que toca à líbido ou à forma de viver e exprimir a sua sexualidade. As práticas e atitudes amorosas e libidinais das personagens negras heterossexuais dos meus romances — Tangi, em Os Dias da Febre (2010); Sara, em Do Outro Lado do Mar (2015); etc. — em nada se distinguem das de Maria, Poleciana e Luísa em O Estranho Caso de Sebastião Moncada. Não sou eu, repito, que vejo os negros como “entregues à febre da luxúria”, é João Pedro George que, ao que parece, tem esse estereótipo na cabeça e que associa um certo tipo de libidinosidade, ou de formas mais soltas de vivência do corpo, a figuras negras. E é precisamente porque o faz que, de forma automática, enegreceu ou africanizou as minhas personagens femininas brancas. É irónico que o livro de João Pedro George, que tem no título a expressão “Ficções do Império Português”, inclua nas suas páginas uma tão grande ficção nos planos da análise e da crítica, mas o trabalho feito à pressa associado aos preconceitos e às fantasias erótico-literárias pregam destas partidas às pessoas.
De todo o modo essa é uma questão menor porque o que mais interessa neste caso não são os tropeções, erros e fantasias de João Pedro George, mas o facto de eles serem sintomáticos e ilustrativos da forma como não toda, claro, mas muita gente de esquerda está no espaço público e tende a envolver-se nas questões do foro cultural, intelectual, histórico e político. Nos meus já largos anos de debates na esfera pública deparei-me e confrontei-me muitas vezes com interlocutores e contraditores de esquerda que praticavam, impantes, esta metodologia da leitura parcial, do estudo de relance, das conclusões precipitadas e das acusações disparatadas. Vendo bem este estranho caso de João Pedro George, que inventa mulheres negras onde só existem brancas, e vê olhares colonialistas onde não há sombra de colónias, colonizadores e colonizados, não é assim tão estranho no contexto dessa esquerda. É até, arrisco-me a dizê-lo, a típica forma desse sector da opinião pegar nas coisas, projectando os seus fantasmas sobre os outros. E é por isso que debater com gente que treslê a este ponto é quase como jogar futebol num campo de minas. Exige técnicas e paciência de soldado sapador. - João Pedro Marques (publicado pela 1ª vez in Observador, 13 de Fevereiro de 2026).