Desculpem, mas estão muito enganados

31-03-2025 23:40

Há dias o cantor e compositor brasileiro Pierre Aderne assinou um artigo de opinião no jornal Público cujo principal objectivo era criticar o facto de haver poucos ou nenhuns deputados luso-brasileiros e luso-africanos no parlamento português. Nesse artigo, Aderne fez afirmações de natureza histórica absolutamente surpreendentes. Escreveu, nomeadamente, que “ainda no século XV” certos negros “foram fundamentais para a construção dos pilares da democracia brasileira”, destacando o nome de “Aqualtume, uma princesa negra nascida no Reino do Congo, que comandou um exército de 10 mil homens contra o Reino de Portugal defendendo seu território”. Segundo Pierre Aderne, após ter sido derrotada, em África, essa princesa congolesa, “foi vendida como escrava e levada para Alagoas, onde, logo depois, se juntou ao Quilombo dos Palmares de Zumbi e Dandara, levando consigo vários companheiros para viver em estado livre”.

Ora há aqui duas impossibilidades cronológicas e uma tese por provar. Em primeiro lugar no século XV ainda não havia negros no Brasil, pois os portugueses só lá chegaram em 1500 e só começaram o transporte de negros para essa região já o século XVI ia bem entrado. Em segundo lugar, Aqualtune (julgo que é assim que se escreve), cuja história é mítica ou semi-lendária, não poderia ser uma personagem do século XV e, simultaneamente, figura destacada no quilombo de Palmares, pois esse quilombo, nasceu quando o século XVI já findava e foi desfeito no final do século seguinte. Foi, portanto, uma construção social e política do século XVII. Em terceiro lugar, e mais importante, não se percebe — nem o Pierre Aderne esclarece — em que é que os negros do quilombo de Palmares, ou outros, anteriores, terão sido “fundamentais para a construção dos pilares da democracia brasileira”.

Este tipo de tiradas sem fundamentação e de confusões históricas têm sido muito comuns desde que o debate sobre racismo, escravatura e temas conexos, chegou à esfera pública, e Portugal tem tido uma boa dose de produtores de ruído e de equívocos. Nestes últimos anos dezenas ou centenas de pessoas de extrema-esquerda inundaram o espaço público com teorias, afirmações, fantasias, declamações e acusações que tentaram e ainda tentam fazer passar por conhecimento histórico ou científico, mas que mais não são do que grandes doses de desinformação lançadas para a cabeça de quem as ouve ou lê.

Eu vou dar um exemplo — um de muitos — para ilustrar esta minha afirmação e para que os leitores possam perceber exactamente aquilo a que me refiro. No passado dia 13 de Maio de 2024 uma senhora claramente de esquerda chamada Bé Simões Ferreira, querendo evocar os horrores da escravatura e celebrar a sua abolição, escreveu um texto relativamente grande no Facebook que começa assim:

“13 de Maio de 1888 – nesta data era abolida a Escravatura em Portugal iniciada com a bênção do Papa Nicolau na sua Bula Dum Diversas entregue ao Rei Afonso V de Portugal. ‘Os pretos não tinham alma’, só por serem pretos, disseram, como justificação. A base do racismo estava lançada – a fórmula estava encontrada. Separar pela cor da pele. Escravizar pela cor da pele até à eternidade. Nunca estes nem os seus descendentes teriam direito a ser livres. Começava assim o tenebroso e horrendo período da História Humana do tráfico/comércio de pessoas, que deixavam de ser humanos, passando a objectos. Portugal foi o primeiro estado do Mundo a fazer comércio global de escravos vindos de África. Entre 1450 e 1900 terá traficado cerca de 11 milhões de pessoas.”

O texto prossegue, depois, em registo semelhante e com idêntica taxa de erros e efabulações. Porque, de facto, essa taxa, isto é, a quantidade de disparates por linha, é de pôr os cabelos em pé. Vejamos, seguindo a ordem por que foram sendo debitados:

 

  1. 13 de Maio de 1888 é a data da lei Áurea, que de facto aboliu o estado de escravidão, sim, mas no Brasil. Em Portugal a escravidão já fora abolida em 1869, ou seja, 19 anos antes.
  2. A escravatura não foi iniciada em Portugal em meados do século XV, no tempo de D. Afonso V e com a bênção da Bula Dum Diversas. A escravatura já existia no território português (e noutros) há muitos séculos, nomeadamente o tráfico e a escravidão de mouros.
  3. É falso que se tenha dito, como justificação do tráfico de escravos vindos de África, que os pretos não tinham alma. Foi precisamente o contrário que se passou: alegou-se — e alegou-se isso desde o século XV até ao século XIX — que era para salvar a alma desses negros — que, de outro modo, se perderia no antro de barbárie que seria África — que se fazia e se tolerava aquele triste tráfico.
  4. É falso que o racismo surja com a questão da alma ou com o início do tráfico transatlântico de escravos. O racismo nasce mais tarde, no século XIX, ou seja, é contemporâneo do fim desse tráfico e não do seu princípio.
  5. E será verdade que nunca os escravos e seus descendentes teriam direito a ser livres, como garante a autora? É outra falsidade, pois foram muitos os escravos que foram libertados ou que compraram a sua liberdade.
  6. Mas os disparates não ficam por aqui. O tráfico ou comércio de pessoas — que foi de facto tenebroso e horrendo — não começou no século XV, com os Descobrimentos portugueses. É algo que vem, pelo menos, do IIIº milénio a. C., pois já está atestado na Suméria, no Egipto e noutros pontos do globo.
  7. É também falso, ou muitas vezes falso, que os escravos deixassem de ser humanos e passassem a objecto. Uma das muitas tensões que resultavam da escravatura residia precisamente no facto de colocar em jogo pessoas com as quais podiam estabelecer-se relações de todo o tipo, inclusive de natureza sexual ou afectiva, o que entrava por vezes em choque com a utilização que se lhes dava.
  8. E não é verdade que Portugal tenha sido o primeiro estado do Mundo a fazer comércio global de escravos vindos de África, pois antes de os navegadores portugueses terem chegado às costas da Mauritânia, do Senegal, etc., já os estados muçulmanos faziam comércio global de escravos vindos da África subsariana, para outras regiões da terra, nomeadamente para a Ásia. Quando os descobridores portugueses chegaram a essas regiões de África já os estados muçulmanos haviam de lá tirado cerca de 5,7 milhões de pessoas escravizadas.
  9. E já que falo de números é importante dizer que é um erro de dimensões homéricas afirmar, como fez a autora do texto, que entre 1450 e 1900 Portugal terá traficado cerca de 11 milhões de pessoas. Esse é o número aproximado — o número mais plausível é 12,5 milhões — do total de escravos transportados por todos — repito: todos — os países do Ocidente. Portugal é politicamente responsável por 4,5 milhões desse total.

 

Em suma, neste pequeno fragmento escrito por Bé Simões Ferreira, temos uma amostra da malha de enganos, mal-entendidos, absurdos, ficções e, sobretudo, emoções, que a esquerda andou a verter para a esfera pública. O objectivo principal, conscientemente assumido ou não, foi e continua a ser o de fazer sentir aos portugueses que estão em falta, em dívida moral e material, para com as gentes de origem africana. Aliás, a extrema-esquerda ainda não se cansou de martelar essa tecla. No passado mês de Outubro, por exemplo, o médico Gustavo Carona contou, em artigo no Público, que na sequência de uma visita ao museu de história afro-americana, em Washington, ficou a perceber — mal ou erradamente, mas Gustavo Carona não o sabe — “que nós portugueses fomos os primeiros e fomos os últimos a traficar negros de África para a América do Norte, e que o fizemos mais do que todos os outros europeus juntos. E não estava ali contemplada a América do Sul, que acrescentaria dados ainda mais gritantes das maldades do nosso passado, quando 50% dos escravos morriam na travessia do Atlântico e mesmo assim era um negócio muito rentável”.

Eu leio e ouço enganos e mal-entendidos destes desde 14 de Abril de 2017, dia em que, no seguimento de declarações de Marcelo a propósito da relação de Portugal com a escravatura — declarações essas que indignaram a sempre irritável extrema-esquerda indígena —, o conhecido político Rui Tavares veio exigir um grande debate público sobre o tema. E o debate fez-se e espero que tenha sido proveitoso, ainda que admita que possa ter sido cansativo e repetitivo porque foi (e é) necessário estar constantemente a repor a verdade histórica nos carris. Todavia, que remédio há senão fazê-lo e dizer aos que estão equivocados — e que, sem o querer e saber, induzem outros em erro —, desculpem, mas estão muito enganados? - João Pedro Marques (publicado pela 1ª vez in Observador, 31 de Março de 2025).